Nos capítulos precedentes traçamos a origem e mostramos a crença de um número de seitas, todos séculos afora, que se opuseram as corrupções da Igreja Católica Romana e que insistiram em batizar a todos quantos lhe vinham, porque não pensaram em qualquer outra fora da igreja apostólica tinha o direito de batizar.
Há muitas outras seitas que não mencionamos, que tinham as mesmas características, mas não eram tão grandes; entre elas estavam os Petrobrusianos, os Henricianos, os Arnoldistas, os Berengários, os Cataros, os Lolardos, os Menonitas e outras. Todas elas sustentavam idéias similares em posição as idéias corruptas e práticas da Igreja Católica.
Pensamos ser bom, contudo, somando, dar um capítulo exclusivamente aos anabatistas, para que ponhamos ênfase adicional nesta uma resistente característica dos dissidentes através de todos os séculos, a saber, sua oposição ao batismo estranho. Temos alguns fatos interessantes a submeter aos que pensam que os batistas são de origem recente e que a igreja que Jesus edificou cessou de existir durante as assim chamadas épocas trevosas.
Somos lembrados nesta conexão daquela história do Velho Testamento, de Elias, fugindo da ameaça de Jezabel ao Monte Horebe dizendo ao anjo do Senhor: "Tenho sido muito zeloso pelo Senhor Deus dos exércitos; porque os filhos de Israel desprezaram teu concerto, derrubaram teus altares, a espada mataram teus profetas, e eu, mesmo eu, só fiquei e a mim procuraram para tirarem-me a vida". Deus fê-lo levantar-se sobre o monte diante do Senhor, enquanto um grande vento partiu as montanhas e fez em pedações as penhas diante do Senhor, mas o Senhor não estava no vento. Veio então o terremoto e os fundamentos das montanhas se abalaram e a terra bocejou como para engolir todas as coisas vivas, mas o Senhor não estava no terremoto. Então um fogo, crepitante, abrasador, queimando as florestas, as chamas emiscuindo-se pelos arbustos e saltando ao céu em línguas rubras; mas o Senhor não estava no fogo. Veio então uma voz suave, discreta e Deus disse a Elias que tinha sete mil dos quais o profeta não sabia, que não se tinham ajoelhado diante de Baal.
Que lição para os batistas modernos. Deus tem Suas hostes em todos os tempos. Não precisamos de temer. O que precisamos de fazer é cingirmo-nos de novo e com a fé de nossos pais sairmos a possuir nossas possessões, tomando este mundo para Cristo sob os estandartes da igreja que Jesus edificou e com a Sua promessa que estará conosco até o fim do mundo
"O Filho de Deus saiu para a guerra,
Uma coroa real ganhar,
O Seu pendão carmesim farfalha além,
Quem acompanha no Seu cortejo?
Quem melhor pode beber Sua taça de amargura,
Triunfante sobre a dor,
Quem fiel carrega Sua cruz aqui,
O tal segue no Seu séquito".
Tem havido batistas, ou anabatistas, como eram chamados depois do primeiro século desta era, em cada século da era cristã, contrários à crença de alguns que a verdadeira igreja se perdera ou cessara de existir durante a Idade Média, o que agora procedemos a mostrar.
Aqui temos a igreja apostólica, que era batista, como mostramos, porque sua crença e sua prática foram idênticas às das igrejas batistas:
Só crentes foram batizados.
A imersão foi o único batismo.
Só crentes batizados vieram à mesa do Senhor.
Foi uma democracia pura.
Foi uma igreja guiada pelo Espírito Santo
Cada um desses cinco sinais da igreja de Jerusalém elaboramos previamente. Neste século os cristãos foram ativos em todas as terras. Pensa-se que depois que Filipe batizou o eunuco, Matias trabalhou na Etiópia, Marcos com Pedro e Judas pregaram no Egito e outras partes da África. Diz-se que Marcos foi martirizado pelo povo em Alexandria; que Judas pregou na Iduméia, Síria e Mesopotamia, Pedro no Ponto e na Galácia; que João na região das sete igrejas da Ásia, Mateus na Partia, Filipe e André na Cítia, Bartolomeu ao Norte e ocidente da Ásia, Simão e Judas na Pérsia, Tomás na Média e Carmania, Paulo na Gália (França), Espanha e Ilírico, Tito na Dalmácia, Pudens e Cláudia nas ilhas britânicas e especialmente em Gales.
"Portanto, os que foram espalhados iam por toda a parte pregando a Palavra".
"E a mão do Senhor estava com eles e grande número creu e converteu-se ao Senhor".
"Assim crescia poderosamente a Palavra do Senhor e prevalecia. E os discípulos encheram-se de gozo e do Espírito Santo".
As igrejas cristãs deste século estavam unidas só pelos laços da fé e do amor. Independência e igualdade formaram a base de sua constituição interna e elas de todo modo corresponderam às igrejas da fé batista na admissão de membros ou exclusão de ofensores. Não havia ensino de salvação batismal, conquanto ele começasse a mostrar a cabeça no fim deste século; nada de batismo infantil, nada de respingamento em vez de batismo; nada de ordens no ministério, nem hierarquia eclesiástica. Em testemunho disso, encaminhamos o leitor a Orchard, Gibbon, Mosheim, Wall e Bingham, os quais escreveram histórias que abarcam este período.
Neste século começa o impulso na direção de Roma, daí o princípio da controvérsia sobre batismo estranho e a corrupção na igreja. Tertuliano, um dos patrologos post-apostólicos, opõem-se a tal batismo no princípio deste século. Por causa da importância de sua afirmação já por nós citada em prévio capítulo, tornamos a liberdade de a repetirmos a modo de ênfase: "Os heréticos não têm comunhão nesta nossa disciplina, logo o seu batismo não é um com o nosso também, porque não é o mesmo: um batismo que eles não tem devidamente, não o tem absolutamente".
As igrejas plantadas por Paulo ficaram como uma unidade contra a imersão estranha até 250 A. D. Eusébio, livro 7, capítulo 5.
Neander, ao falar da divisão na igreja neste tempo, diz: "Mas aqui outra vez, foi um bispo romano, Estevam, que instigado pelo espírito de arrogância eclesiástica, dominação e zelo, sem conhecimento, ligou a este ponto de disputa, uma importância dominante. Daí, para o fim do ano 253, lavrou uma sentença de excomunhão contra os bispos (pastores) da Ásia Menor, Capadócia, Galácia e Cilícia, estigmatizando-os como anabatistas, um nome, contudo, que eles podiam afirmar que não mereceram por seus princípios; porque não era seu desejo administrar um segundo batismo aqueles que já tinham sido batizados, mas disputavam que o prévio batismo dado por hereges não podia ser reconhecido como verdadeiro. Isto induziu Cipriano, o bispo (pastor) a propor o ponto para discussão em dois sínodos reunidos em Cartago no ano 225 A D., um composto de dezoito, outro de setenta e um bispos (pastores), ambas as assembléias declarando-se a favor das idéias de Cipriano, a saber, que o batismo de heréticos não devia ser considerado como válido". Neander, Vol. I, pg. 318.
Outra vez na Constituição Apostólica dada nos patrólogos anti-nicenos, temos esta afirmação: "Do mesmo modo contentai-vos com um batismo só, aquele que é na morte do Senhor; não o que é conferido por ímpios hereges". Vol. 1. pg. 456.
Constantino subiu ao trono em 306 A. D. Ele procurou ganhar os novacianos de volta à Igreja Católica, mas falhou. Também aqui houve um conflito com os Donatistas. Novacianos e Donatistas batizavam a todos que lhes vinham da Igreja Romana, pelo que foram chamados anabatistas. Perto do fim deste século temos o primeiro caso arquivado de batismo infantil. Em 370 A. D., Galetes, o filho agonizante do imperador Valêncio, foi aspergido por ordem de um monarca que jurou que não seria contraditado.
O Concílio de Mela, na Numídia, África, em 416. A. D., manda os cristãos batizarem suas criancinhas para perdão do pecado e amaldiçoa a todos que negam a doutrina. Cirilo, em 412 A. D., foi ordenado bispo em Alexandria. Um dos seus primeiros atos foi trancar todas as igrejas novacianas. Recorreu-se a perseguição de todos que rebatizassem católicos. O Concílio Laterano fez um decreto de banimento para todos os anabatistas como hereges ao passo que um édito foi proclamado por Teodosio e Honório declarando a morte de todas as pessoas rebatizadas e rebatisadoras. Albano, zeloso ministro, com outros, foi posto a morte por batizar. Os Anabatistas fugiram para as montanhas do Piemonte, onde foram chamados Valdenses. Na Espanha e na França havia dezenas de milhares de Albigenses e Valdenses. Os gôdos devastaram a Itália em 476. Sua liberalidade para com os Novacianos fê-los aumentar grandemente.
Os Albigenses e os Valdenses, neste tempo, estavam muito ativos na Espanha e na França. Em 524 A. D. reuniu-se em Lérida um concílio católico no qual se declarou que quantos tivessem caído na prevaricação dos anabatistas, como os Novacianos e outros, se voltassem à igreja católica, seriam recebidos.
Surto dos Paulicianos na Armênia, espalhando-se pela Mesopotamia e Pérsia e nas montanhas do Tauro, assinalou o começo deste século. Na Tracia foram chamados Bogomilos. Batizavam e rebatizavam somente adultos. Rejeitavam o batismo infantil e o batismo estranho de qualquer procedência. Foram anabatistas declarados. Foram contados aos milhares. Brockett, na sua história dos Bogomilos da Bulgária, diz deles: "Estas seitas eram batistas, não apenas nas suas idéias sobre o assunto de batismo e da ceia do Senhor senão também na sua oposição ao pedobatismo, a uma hierarquia de igreja e a sua adoração da Virgem Maria e os santos; na aderência a independência e liberdade de consciência no culto religioso. Em suma, força-se em mim a conclusão que nesses cristãos da Bósnia, Bulgária e Armênia temos uma sucessão apostólica de igrejas cristãs, igrejas novo-testamentárias; que, tão cedo como no século doze, essas igrejas contavam com uma comunhão de convertidos e crentes tão grande como a das igrejas batistas em todo o mundo hoje.
Muitos milhares de Valdenses espanhóis, um outro nome dos Paulicianos, Albigenses e Valdenses, que ali se estabeleceram devido a perseguição no Oriente, emigraram pelos Pirineus da Espanha as fraldas das montanhas francesas e mesmo ao Piemonte. Eram todos eles anabatistas.
Bonizo, bispo de Sutrio, afirma que neste período. Os Peterinos surgiram na Itália. Sua religião pública de nada mais consistia senão oração, leitura e exposição do Evangelho. Diziam que uma igreja cristã devera consistir somente de gente boa. Só a fé salva. Por batismo só a imersão. O batismo infantil eles condenavam como um erro.
Aí para o final do século oitavo ficaram as coisas mais brilhantes para os Paulicianos e outros que tinham sido tão severamente perseguidos durante os séculos sétimo e oitavo. Sob o imperador Nicéforo restauraram-lhes até certo ponto seus privilégios civis e religiosos. Durante esses anos auspiciosos os Paulicianos disseminaram largamente suas opiniões e tornaram-se formidáveis no Oriente, de acordo com a Enciclopédia de Chamber no artigo sobre os Paulicianos.
"Para o fim deste século nono, aí por 845 A. D., para ser mais exato, a imperatriz Teodora lavrou decretos muitos severos contra os Paulicianos e a crueldade dos seus oficiais, ao executarem tais decretos, foi horrível além de toda expressão. Os seus sanguinários inquisidores vasculharam cidades e montanhas na Ásia Menor, confiscando bens e propriedades de cem mil desse povo. Os proprietários desse número foram postos à morte da maneira mais bárbara, feitos expirarem vagarosamente sob uma variedade das mais esquisitas torturas. Muitos foram banidos, particularmente na Bulgária. Uma porção desta gente emigrou da Trácia e suas doutrinas logo lançaram profundas raízes no solo Europeu. Os que escaparam dos inquisidores fugiram para os Sarracenos, que os receberam com compaixão, e em conjunção com os quais, sob oficiais experimentados, mantiveram uma guerra com a nação grega durante cento e cinqüenta anos", Orchard, História, pg. 137.
DÉCIMO SÉCULO
Os Paulicianos, no reinado de João Zimico, no século décimo, ganharam muita força e foram por todas as partes de outras províncias pregando o Evangelho. Foram à Itália. Tornaram-se um espinho na carne dos pontífices romanos. Os Bogomilos foram um ramo dos Paulicianos que viveram na França. Tiraram o seu nome de um dos seus líderes que viveu no século décimo. A perseguição dos Bogomilos foi contínua e severa. Ainda que se fez todo o esforço para destruí-los, sobreviveram. Conybeare, o historiador, diz deles: "Eles não foram pisados, mas apenas soterrados. Suas heresias ainda emboscaram por toda a Europa, mas especialmente nos Balkans e ao longo do Reno. Nestes esconderijos parece terem conjugado suas forças em secreto para uma vez mais emergirem à luz do dia, quando uma oportunidade se oferecesse. A oportunidade foi a Reforma Européia, na qual, especialmente sob a forma de anabatismo e opinião Unitária, este fermento da igreja apostólica prístina se encontra livremente misturado com outras formas de fé, modificando-as". The Key of Truth, pg. 196.
Nesta citação de Conybeare, notareis que ele os chama ana-batistas, e refere que eles continuaram até a reforma, no século dezesseis, e conservaram e perpetuaram o fermento da igreja apostólica.
Virando para o Ocidente, neste século, vemos também os Paulicianos fortemente entrincheirados na França. Gibbon, o historiador, diz: "Foi no país dos Albigenses, na província sulista da França onde os Paulicianos principalmente criaram raiz. Em várias províncias foram conhecidos por nomes diferentes". Roman History, cap. 54.
Esses Paulicianos franceses eram da mesma fé dos Búlgaros. O batismo seguia-se à justificação. Batizavam a todos que lhes vinham dos católicos. Rejeitavam o batismo infantil. Eram, logo, anabatistas também.
Se novecentos mil desse povo foram trucidados nas províncias da Grécia pela imperatriz Teodora e perante isto Gibbon diz que foi nas províncias da França sulina que os Paulicianos mais criaram raiz, deixaremos ao leitor imaginar quantos milhares deles havia na França, Itália e Espanha que permaneceram pela fé uma vez entregue aos santos, poderoso exército dos fiéis que, como as vagas do mar, quebraram séculos após séculos contra o poderio romano até a reforma no século dezesseis, quando a ressaca imensa veio e quase tragou os católicos romanos, logrando cindir do seu guante milhões daqueles que procederam dela com a Reforma Protestante.
Autor: W. M. Nevins