Cap 13 - O BATISMO ESTRANHO E OS BATISTAS

CAPÍTULO 10

OS ANABATISTAS EM CONTINUAÇÃO

No capítulo anterior traçamos em breve os Anabatistas durante os primeiros dez séculos da era cristã. Dizemos em breve porque, se tivéssemos dado toda a informação a nós deixada pelos historiadores, isso encheria volumes. Mas os dados que temos oferecido são fragmentários. Por exemplo, num certo século, contentamo-nos em dar, como regra, o movimento de uma seita num país, quando podíamos ter dado os movimentos das muitas seitas em todos os países da Europa, Ásia e África. Então, quando consideramos que os historiadores nos deram só vislumbres da história deste período, que o máximo da história desses Anabatistas está por escrever, e nunca será escrita, maravilhamo-nos da fé e da fidelidade dessa gente, contados aos milhões, tangidos, perseguidos, exilados, peregrinando para lá e para cá na terra, trucidados, tantos como 900.000 só num século numa província só, e contudo, através disso tudo, sobrevivendo e conservando-se para carregar a tocha da verdade nas suas mãos moribundas, passando-a as gerações por vir. Maravilhosa fé! Coragem incomparável! Insobrepujável fidelidade ao sagrado depósito que Deus lhes pusera nas mãos!

Não podemos abtermo-nos de citar nesta conexão as palavras inspiradas no décimo primeiro capítulo de Hebreus: "Que pela fé subjugaram reinos, obraram justiça, obtiveram promessas, fecharam as bocas dos leões, apagaram a violência do fogo, escaparam ao gume da espada, da fraqueza se fizeram fortes, na batalha se esforçaram, puseram em fuga os exércitos dos estranhos, mulheres receberam seus mortos ressuscitados; outros foram torturados, não aceitando livramento, para que obtivessem uma melhor ressurreição; outros tiveram escárnios e prisões, sim, açoites e algemas. Foram lapidados, serrados, tentados, passados ao fio de espada; peregrinaram em pelos de carneiro e bodes, ficando destituídos, afligidos, atormentados: dos quais o mundo não era digno; vagaram pelos desertos e pelas montanhas, cavernas e covas da terra".

E a parte lastimável de tudo isto é que sofreram o mais destas coisas daqueles que se arrogavam eles mesmos o nome de cristãos, os católicos romanos e gregos. Significativo que os Gôdos, que conquistaram os Romanos, e os Sarracenos, que vieram quase a conquistar as hierarquias romana e grega, foram muito mais compassivos para com estes Anabatistas do que os próprios católicos romanos e gregos.

Chegamos agora a traçar a história dos Anabatistas do século décimo ao décimo-sexto, quando temos a reforma protestante.

DÉCIMO PRIMEIRO SÉCULO

"Da Itália", diz Mosheim, "os Paulicianos mandaram colonos quase que a todas as outras províncias da Europa e formaram gradualmente um considerável número de assembléias religiosas que aderiram à sua doutrina e verificaram toda a oposição e indignidade dos papas. Cultivaram a estima e a admiração da multidão pela sua santidade. Na Itália foram chamados Paterinos e Cataros".

Dos Paterinos, a quem menciona Mosheim supra, diz Orchard: "Os Paterinos em 1040 tornaram-se muito numerosos e conspícuos em Milão, que foi sua residência principal. Aqui floresceram, pelo menos, duzentos anos. Suas igrejas foram divididas em dezesseis compartimentos iguais as que os batistas ingleses chamaram associações; cada uma subdividida em partes que seriam chamadas igrejas, ou congregações. Uma, ou a igreja principal, era a de Concorreggo e os membros de igreja nesta associação foram mais que mil e quinhentos. Nos reinados dos Gôdos e Lombardos, os Anabatistas, como os católicos os chamavam, tiveram o seu quinhão de igrejas e batistérios".

Bruno e Berenger foram reformadores na França em 1035 A. D. O segundo levou consigo vastas multidões de discípulos. Mezerei, historiador francês diz que suas doutrinas penetraram a França, a Itália e a Alemanha com outros reinos mais. Os seus seguidores eram chamados evangelistas durante um século e muitos padeceram morte por suas opiniões. Belarmino diz: "Os Berengários só admitem adultos ao batismo. Erro que os Anabatistas abraçaram". Mezerei declara ter sido Berenger cabeça dos sacramentários, ou Anabatistas, e Morell calcula para mais de 800.000 no ano 1160 A. D. professando a fé berengária.

DÉCIMO SEGUNDO SÉCULO

Chegando ao século décimo segundo temos não só de considerar os 800.000 berengários, mas uma galáxia de novos nomes em surto, que tiveram tremenda companhia ameaçando, onde quer que vivessem, a própria existência da Igreja Católica. Estes nomes são Pedro de Bruys no Sul da França, Henrique de Tolosa, Arnaldo de Brescia na Itália e Pedro de Lião.

Pedro de Bruys apareceu aí por 1110 nas províncias do Languedoc e Provença no Sul da França. Opôs-se às corrupções da Igreja Católica e batizou os que vinham dessa comunhão. Foram, portanto, chamados Anabatistas. O bispo de Meaux increpa Calvino como segue: "Adotais Henrique e Pedro de Bruys entre vossos predecessores, mas ambos, todos sabem, foram Anabatistas".

Pedro de Bruys continuou seus labores por vinte anos, quando foi às chamas em São Giles por uma plebe enraivecida, estumada pelo clero da Igreja Católica.

Henrique de Tolosa, discípulo de Pedro de Bruys, apareceu cinco anos mais tarde como reformador. Denunciou o Clero Católico pelos seus vícios e a Igreja Católica pela sua superstição e ensino falso. Sua influência foi tão tremenda que Bernardo escreveu ao Conde de São Giles: "As igrejas estão sem gente, a gente sem sacerdotes, os sacerdotes sem reverência e, por fim os cristãos sem Cristo. Nega-se às crianças a vida de Cristo por recusar-lhes a graça do batismo". Arnaldo de Brescia na Itália, surgiu aí por 1137. Viajou na França na juventude e foi pupilo do renomeado Pedro Abelardo. Homem de poderosa eloquência, bateu na opulência e luxúria do Clero Romano. Ergueu-se o povo em rebelião contra os bispos. A Igreja Romana alarmou-se e, no Concílio em 1139, foi ele condenado ao silêncio perpétuo. Deixou a Itália e foi para Zurique na Suiça; "Tangido de que pela influência de Bernardo, foi para Roma e arrostou a fera na sua própria jaula, no próprio capitólio. Por dez anos manteve sua ascendência sobre os papas, que tremeram no Vaticano, ou vagaram como exilados noutras cidades, mas, finalmente, os papas ganharam ascendência, e, em 1165, foi preso, crucificado e queimado.

Dele diz Mosheim: "Este reformador, em cujo caráter e maneiras havia diversas coisas dignas de estima, levou após si grande número de discípulos que dele derivaram o nome de Arnoldistas, e em épocas subsequentes descobriram o espírito e intrepidez do seu líder tantas vezes quantas se ofereceram ao seu zelo oportunidades favoráveis de reformarem a igreja.

Pedro de Lião era um negociante opulento e chegou à proeminência como reformador aí por 1160. Ao traduzir os primeiros evangelistas do latim para o francês ficou espantado de achar que a religião da Igreja Romana diferia quase totalmente do que fora ensinado por Cristo e os Apóstolos. Deixou seus negócios, distribuiu suas riquezas entre os pobres, adotou as crenças dos Valdenses do Piemonte e foi ensinar a fé apostólica. Suas idéias estavam de acordo com as dos Albigenses, Arnoldistas, Petrobrusianos e outros dissidentes que foram chamados Anabatistas. Cresceram rapidamente. Foi anatematizado pelo pontífice. Sendo forçado pela perseguição a deixar Lião atravessou diferentes províncias, pregou a palavra com grande aceitação. Foi para a Alemanha com muitos dos seus seguidores, lá chamados Picardos, e depois então na Boêmia. Por causa de perseguição por Felipe II da França muitos dos seus seguidores fugiram para os vales do Piemonte, levando consigo a nova tradução da Bíblia, enquanto outros foram para a Alemanha e alguns para os países baixos, espalhando os fogos da dissidência com as doutrinas e corrupção católicas.

Orchard diz: "Suas doutrinas foram levadas a Flandres, Polônia, Espanha, Calabria e mesmo até aos domínios de grão Sultão". Assim aumentaram por toda a Europa. Em Narbona e países adjacentes tornaram-se tão poderosos a ponto de ameaçarem o poder papal de ruína.

Dieckoff, historiador alemão dos Valdenses, diz deles: "Havia uma conexão entre os Valdenses e os seguidores de Pedro de Bruys, Henrique de Lausanne, Arnold de Brescia. Finalmente uniram-se numa corporação aí por 1130, pois sustentavam as mesmas idéias". Pgs. 167, 168.

DÉCIMO TERCEIRO SÉCULO

Caracteriza-se este século pela mais horrível perseguição dos que se opuseram as más práticas e falsas doutrinas da Igreja Católica Romana. Parece que, por este tempo, os dissidentes tornaram-se tão numerosos e tão espalhados em todos os países da Europa, que a Igreja Romana ficou excessivamente irada, determinando suprimir ou exterminá-los. Verificamos primeiro o tratamento dos Peterinos na Itália. Em 1220 A. D., Honório III induziu Frederico II a lavrar um édito contra eles. Mosheim diz que não havia alternativa de escapar aos monstros humanos da inquisição, salvo pela fuga, e que muitos passaram da Itália, espalhando-se como uma inundação por todas as províncias européias. Outros éditos foram lavrados, um dos quais estabelecia: "Não deixaremos que estes miseráveis vivam". Uns tiveram suas línguas arrancadas, para que não corrompessem outros; outros foram entregues às chamas. A despeito disto, no meado deste século tiveram, disse Reiner, quatro mil em perfeita forma, mas os chamados discípulos eram multidão inumerável.

Quadro mais horrível se apresenta no tratamento dos Valdenses e Albigenses na Espanha e na França. Contra eles o Papa Inocêncio III publicou decretos e prometeu indulgências a todos que se unissem numa cruzada para destruí-los. Formidável exército de fanáticos se ajuntou por este meio de toda a Europa, somando de três a cinco mil. A frente destes marchava Simão de Monfort, Conde de Liecester. Em poucos meses duzentos mil foram sacrificados; outros tangidos de suas casas incendiadas estiveram vagando nas florestas e montanhas, perecendo de privações e fome. No outono do mesmo ano seguiu-se outra cruzada capitaneada por Alice, mulher de Simão de Monfort. Todos os encontrados foram enforcados em patíbulos. Cem habitantes de Brom tiveram seus olhos arrancados e seus narizes cortados. Isto continuou com mais ou menos intensidade num período de quarenta anos, durante cujo tempo, diz Orchard, extinguiu-se um milhão de vidas. Todavia, a despeito disto, o historiador Clark. calcula os Berengários, outro nome desses dissidentes, em oitocentos mil em 1260. Muitos dos que escaparam fugiram para a Boêmia, Livônia e Polônia, onde foram chamados Picardos, ou Valdenses. Um inquisidor da Igreja de Roma diz desses refugiados Boêmios: "Eles dizem que a Igreja de Roma não é a de Jesus Cristo, mas uma assembléia de ímpios. Que ela cessou de ser a verdadeira igreja no tempo do Papa Silvestre, presidicia em 330 A. D. Os escritores boêmios dizem que batizaram e rebatizaram tais pessoas que se ligaram as suas igrejas, e sempre fizeram assim. Em outras palavras, eram Anabatistas e sempre o foram".

DÉCIMO QUARTO SÉCULO

Dissemos que os Valdenses ou Picardos, que fugiram para a Boêmia por causa de perseguições no século décimo terceiro, vieram a somar oitenta mil no século décimo quarto. Este século se caracteriza mais pelo surto e pela obra de quatro anabatistas proeminentes: João Wyclif, da Inglaterra, João Huss e Jerônimo de Praga e Valter Lollard do Reno, na Alemanha. Pedro Payne, principal da Sala Edmundo na Universidade de Oxford, Inglaterra, sendo perseguido por causa de sua oposição à violência papal, fugiu para a Boêmia, levando tratados de Wyclif que foram introduzidos na Universidade de Praga, onde Huss era professor. Pelo mesmo tempo, ou um pouco mais cedo, Walter Lollard, homem de cultura e eloquência, famoso pelos seus escritos, visitou a Inglaterra e, porque eram da mesma fé, sendo anabatistas, ligaram-se aos Wyclifitas. Entrementes, na Boêmia, João Huss e Jerônimo estavam constantemente abanando o fogo da dissensão contra a fé católica. Huss foi excomungado por contumácia pelo Papa e depois julgado por heresia e queimado na pira. Das idéias dos seus seguidores diz Erasmo: "Os Hussitas renunciaram a todos os direitos e cerimônias da Igreja Católica; ridicularizaram nossa doutrina e prática em ambos os sacramentos e não admitem a ninguém até que sejam mergulhados na água".

Jerônimo de Praga foi amigo íntimo de Huss. Viajou por muitos países da Europa, incluindo a Inglaterra, onde teve acesso aos escritos de Wyclif, os quais copiou e levou de volta com ele para Praga. Huss e Jerônimo foram julgados pelo mesmo concílio e pela mesma ordem queimados na pira. Huss morreu orando por seus perseguidores; Jerônimo cantando: "Hanc, in flammis, offero, Christi tibi". (Esta minha alma em chamas de fogo, Ó Cristo, Te ofereço). Huss e Jerônimo, ensinaram ambos aquelas heresias atribuídas aos anabatistas. Walter Lollard foi um pregador laborioso e eloqüente entre os batistas ao longo do Reno. Também ele foi queimado na pira em 1320 A. D.

DÉCIMO QUINTO SÉCULO

Ao passo que nos aproximamos da grande Reforma Protestante, achamos os dissidentes em toda a parte avacalhados ante o poder crescente e as inquisições da Igreja Católica Romana. Muitos vilipêndios os alcançaram. Orchard descreve um contra os habitantes do vale de Pragela no Piemonte: "O ataque se fez aí pelo fim de dezembro, quando as montanhas estavam cobertas de neve. Os habitantes fugiram para uma das mais elevadas montanhas dos Alpes com suas esposas e filhos, as mães infelizes carregando o berço numa mão e na outra levando a progênie que pudessem andar. Os invasores inumanos os perseguiam até que a escuridão da noite lhes obscureciam os objetos de sua fúria. Muitos foram chacinados antes de alcançarem as montanhas. Colhidos pelas sombras da noite, os aflitos desterrados vagavam acima e abaixo das montanhas cobertas de neve. Paralizados de frio, alguns caíam no sono para nunca mais despertarem. Passada a noite achavam-se nos seus berços ou deitados na neve quarenta criancinhas geladas e sucumbidas. Ao lado delas, também suas mães sem vida e outras prestes a expirar".

Um pouco mais tarde, um exército foi levantado por Alberto, legado do Papa e marchou pelo vale do Loyse. Os habitantes fugiram para as suas covas nas montanhas. Alberto e o seu exército seguiram e fizeram fogueiras nas entradas das cavernas. Quatrocentos crianças ficaram sufocadas nos seus berços ou nos braços de suas mães mortas. Multidões, para evitarem a morte pela sufocação ou serem queimadas na pira, atiravam-se nos precipícios das montanhas, onde nas rochas em baixo faziam-se em postas. Se escapavam à morte na queda, eram brutalmente trucidados pelos soldados. Mais de três mil do vale do Loyse pereceram nesta ocasião. Para obter dinheiro para as despesas desta expedição o Papa concedeu indulgência ao pecado e perdão dos crimes passados.

Deste período diz Mosheim: "Antes do surto de Lutero ou Calvino, jazeram escondidos em quase todos os países da Europa, particularmente na Boêmia, Moravia, Suíça e Alemanha, muitas pessoas que aderiram tenazmente às doutrinas dos batistas Holandeses, as quais os Valdenses, Wyclifitas e Hussitas tinham mantido, algumas de uma maneira mais disfarçada, mais franca e publicamente outras, a saber, que o reino de Cristo, ou a igreja visível que ele estabelecera na terra era uma assembléia de santos verdadeiros e reais, e devia, portanto, ser inacessível aos ímpios e injustos, como também isentas daquelas instituições que a prudência humana sugeriu, opor-se ao progresso da iniquidade, ou corrigir e reformar transgressores. Esta máxima é a verdadeira fonte de todas as peculiaridades que são para serem achadas na doutrina e disciplina dos batistas. É evidente que estas idéias foram aprovadas por muitos antes da alvorada da reforma".

Mosheim ainda diz deste período: "O aspecto ameaçador dos negócios na Alemanha sugeriu aos Picardos a necessidade de emigrarem. Levas de batistas alemães emigraram para a Holanda e os países baixos, as quais, no correr do tempo amalgamaram-se com os batistas holandeses".

E, agora, com o princípio do século dezesseis raia a reforma sob Lutero e Calvino, mas outra vez devemos citar Mosheim: "Houve certas seitas e certos doutores contra quem o zelo, a vigilância e a severidade de Católicos, Luteranos e Calvinistas estavam unidos. Os objetos de sua aversão comum eram as Anabatistas.

E agora vem a reforma e encerramos esta história dos Anabatistas até este tempo, tendo-os traçado, nas palavras de Mosheim, grande historiador luterano, "desde as mais remotas profundezas da antigüidade". À luz dessas provas, quem dirá que a igreja que Jesus edificou alguma vez cessou de existir, ou que a tocha da verdade conservada e transmitida pelos apóstolos, foi em algum tempo apagada?

 

Autor: W. M. Nevins
Fonte: www.obreiroaprovado.com