Por uns cem anos depois da reforma a igreja da Inglaterra batizou por imersão. Contudo, a despeito disto, os batistas da Inglaterra objetaram ao seu batismo sobre os fundamentos que os anglicanos vieram de Roma, era uma igreja apóstata, logo, não qualificada para administrar o batismo.
Quando os brownistas deixaram a Igreja Inglesa, objetaram a sua hierarquia, liturgia, constituição e governo mas acentaram-lhe o batismo. Houve um John Smyth que se separou deles neste ponto, discutindo com eles que se a igreja era apóstata, como filha de Roma, não estava, portanto qualificada para administrar o Batismo e a Ceia do Senhor. O bispo Hall pulou na controvérsia entre Smyth e os brownistas e enquanto esfolava Smyth, repreendia os brownistas com estas palavras: "Vós que não podeis aturar uma igreja falsa, por que vos contentais com um sacramento falso, uma vez que, especialmente, (como disputais) a Igreja Inglêsa não é igreja e o seu batismo, portanto, uma nulidade? Ele (Smyth) diz-vos a verdade, vossa condição é insegura: ou deveis adiantá-los para ele ou voltar-vos para nós. Deveis adiantar-vos para os anabatistas ou voltar-vos para nós. Todos os vossos rabinos não podem responder a essa acusação do vosso irmão rebatizado".
Há uma história que Smyth, desacreditando todo o batismo na Inglaterra, foi a Holanda para descobri-lo e, finalmente, batizou-se. Esta história esta desmentida tanto por Orchard como por Christian. Se verdadeira ou não, mostra que a questão tanto na Inglaterra como na Holanda estava acesa por este tempo. Para se saber definitivamente como os batistas ingleses estavam nesse tempo na questão da imersão estranha, só temos de olhar a sua afirmação doutrinária escrita em 1689: "O Batismo e a Ceia do Senhor são ordenanças de instituição positiva e soberana, indicadas pelo Senhor Jesus, o único legislador, para serem continuadas na Sua igreja até ao fim do mundo, Estas santas indicações são para serem administradas por aqueles que estão qualificados e portanto chamados, segundo a comissão de Cristo".
Um dos nomes afixados a esse documento doutrinário é o de William Kiffin, que foi pastor de uma igreja batista no Devonshire durante sessenta e um anos até sua morte em 1701.
Atos de perdão geral foram publicados na Inglaterra em 1538, 1540 e 1550. Ladrões e vagabundos receberam o favor real, mas os batistas foram excluídos. Sob Maria Sanguinária jorrou sangue de veias batistas e a Rainha Isabel seguiu o exemplo do seu ímpio pai e, como ele, baniu batistas, dando-lhes vinte dias para deixarem o reino. Por duzentos anos, segundo arquivos forenses, os batistas foram perseguidos na Inglaterra.
Froude, historiador, falando de alguns batistas, queimados vivos, diz: "Foram-se os pormenores, foram-se os seus nomes. Pobres holandeses e é tudo. Escassamente o fato parece digno de menção, tão brevemente esta contado num parágrafo passageiro. Por eles não se agitou a Europa, nenhum dos tribunais guardaram luto, nenhum dos corações reais tremeram de indignação. Na sua morte o mundo contemplou complacente, indiferente, ou exultante. Todavia, aqui, também, dentre 25 pobres homens e mulheres, acharam-se catorze que por nenhum terror da fogueira ou da tortura puderam ser tentados a dizer que criam no que não creram. Para eles a História não tem uma palavra de louvor; contudo, eles também, não estavam dando o seu sangue em vão. Suas vidas podiam ter sido tão inúteis como as da maioria de nós. Na sua morte ajudaram a pagar o preço para aquisição da liberdade Inglêsa".
E assim a batalha contra os anabatistas passou de século a século. Os católicos podiam perseguir episcopais e estes no poder perseguir católicos, mas ambos fundiram-se na sua animosidade e perseguição dos batistas. Nem a Alemanha, nem a Inglaterra lhes deram pouso aos seus pés, ao passo que a Espanha, a França e a Itália foram um holocausto de perseguição. Pensamos na crueldade de Herodes que trucidou as crianças masculinas de Judá, e nos arrepiamos só de pensar, mas isso foi só uma pequena província. Pelos séculos afora, por todo o continente europeu, bem assim na Inglaterra, centenas de milhares de crianças sucumbiram a fome e ao frio, enquanto suas mães peregrinaram para perecerem nas florestas e montanhas, e por sobre todo o continente podia ser ouvido o clamor das Raquéis lamentando por seus filhos. E por que? Porque esses anabatistas afirmaram que eles era a única igreja escriturística e o seu batismo o único batismo escriturístico.
Morreram eles em vão? Foram mártires do fanatismo, ou de um princípio tão velho como o próprio cristianismo? Vós, que hoje vos chamais a vós mesmos batistas, atirareis fora essa herança sem apreço que os de ontem conservaram para vós a custa de perseguição, martírio e morte? Quando procedeis assim, não só os marcais com ferro em brasa como fanáticos, mas abdicais o princípio que nos distingue e os batistas se tornam apenas um ramo da Igreja Universal, sem outra autoridade para administrarem as ordenanças que Roma apóstata ou sua filha, a igreja da Inglaterra, nascida na mente perversa de Henrique VIII.
Mais que cem anos prévias a este período a América fora descoberta, mas foi um longo período antes da colonização assumir quaisquer proporções e tornar-se permanente. Mas, por esse tempo, quando a perseguição estava tão comum no continente e na Inglaterra, multidões, buscando escapar das perseguições de Roma, de Calvino, de Lutero e da Igreja Inglêsa, e achar liberdade religiosa e livramento das perseguições do novo mundo, de vários portos embarcaram em navios e cruzaram os mares. Aqui vieram os peregrinos, os irmãos de Plymouth, os huguenotes, e aqui vieram, como tiveram oportunidade, os pobres e oprimidos anabatistas, os quais não encontraram lugar na Europa onde pudessem adorar a Deus segundo os ditames de suas próprias consciências.
Mas é a ironia da história que, em o novo mundo, os perseguidos tornaram-se perseguidores, de fato todos, salvo os batistas. O mundo está familiarizado com a história de Roger Williams, vagando pelas neves da Nova Inglaterra com o seu inverno, mas há alguns outros fatos da história americana a respeito dos batistas com os quais não estamos tão familiarizados. O governador Winthrop conta de uma senhora Moody, a qual comprou uma plantação em Lynn, a dez milhas ao Nordeste de Boston. Diz que ela era uma mulher sábia, amável e religiosa, mas dada ao erro de negar o batismo às crianças. Foi ela lidada pelas autoridades e foi para Long Island e estabelecida entre os holandeses. Então ele ajunta: "Muitos outros, infeccionados de anabatismo, foram removidos também para lá".
Em 1644 um homem de nome Painter virou anabatista e recusou-se a consentir que o seu filho recém nascido fosse batizado. Sendo mandado pelo tribunal a batizar a criança, recusou ainda dizendo-lhes que o batismo infantil era uma ordenança anti-cristã. Por isso foi atado e açoitado.
Por este tempo o governador Winthrop relata terem os Anabatistas aumentado e se disseminado por todo o Massachusetts. Em 1644 o Tribunal Geral passou uma lei para supressão dos Anabatistas. A lei segue em parte: "Tanto quanto a experiência tem provado abundantemente e muitas vezes, que desde o primeiro surto dos Anabatistas tem sido os incendiários da comunidade e os contagiadores de pessoas nas principais matérias de religião, os transtornadores de igrejas em todos os lugares onde tem estado, considerando como ilegal o batismo de crianças, costumeiramente sustentado outros erros de heresias concomitantes; é ordenado e concordado, (portanto) que se qualquer pessoa ou pessoas nesta jurisdição condenar abertamente ou opor-se ao batismo de crianças, ou andar secretamente para seduzir a outros da apropriação de usar ou separar deliberadamente a congregação da administração da ordenança, toda pessoa tal será sentenciada ao banimento".
Embaixo ajuntamos uma carta que o Tribunal Geral escreveu aos irmãos de Plymouth: "Honrados e amados irmãos: ouvimos já há tempo de diversos Anabatistas surgirem na vossa jurisdição e nela conviverem; mas sendo só uns poucos, bem esperamos que agradasse a Deus pelos esforços de vos mesmos e dos fiéis anciãos convosco, ter reduzido tais errados ao caminho direto. Mas agora, para nosso pesar, estamos crivelmente informados que pela vossa paciente atenção a tal gente, o efeito produzido é outro, a saber, a multiplicação e aumento de tais erros, e tememos sejam de outros erros também, se oportuno cuidado não se tomar para suprimir os mesmos".
Obadias Holmes, acusado de ser Anabatista, foi encarcerado e então açoitado publicamente, do que ele escreve: "O homem bateu com toda a sua força (sim, cuspindo nas suas mãos três vezes, como muitos afirmaram) com um chicote de três cordas, com ele deu-me trinta pancadas. Quando ele me soltou do poste, tendo gozo no meu coração, alegria no meu semblante, como os circunstantes observaram, disse eu aos magistrados: Tendes me açoitado com rosas".
O castigo foi tão severo que o governador Jenckes disse: "O Senhor Holmes foi açoitado com trinta açoites e de tal maneira cruel que, por muitos dias, se não por algumas semanas, não podia descansar, mas amparar-se nos seus joelhos e cotovelos, não podendo deixar que qualquer parte do seu corpo tocasse o leito em que se deitava".
O julgamento e açoitamento de Holmes levou Henry Dunster, Presidente de Harvard, a tornar-se batista. Pregou um sermão sobre o batismo infantil que deu na organização de uma igreja batista em Boston. Os magistrados exigiram que os membros desta igreja freqüentassem a Igreja Estabelecida. O tribunal geral os desprivilegiou e os entregou a prisão, perseguindo-os com multas e prisão durante 3 anos. O Tribunal Geral em 1668 sentenciou Shands Giould, William Turner e John Farnum a serem banidos e porque não queriam ir foram presos quase um ano. A separação entre a igreja e o estado não constou da constituição de Massachusetts até 1833, mais de cinqüenta anos depois da Declaração de Independência.
A Virginia foi fundada por sustentadores da Igreja de Inglaterra em 1606 e durante cento e oitenta anos, até 1786, os Batistas sofreram perseguição e não gozaram de liberdade religiosa. A carta provia: "Os presidentes, concílios e ministros proverão para que a verdadeira Palavra e serviço de Deus sejam pregados e usados segundo os ritos e doutrinas da Igreja da Inglaterra".
O sanguinário código do 1611 exigia que homens e mulheres na colônia fossem ao pároco e dessem conta de sua fé e religião, a qual, se não satisfatória, fossem requeridos virem mais vezes a ele para instrução. Se recusassem. O governador tê-los-ia açoitados pela primeira ofensa. Por uma segunda recusa era para serem açoitados duas vezes e reconhecerem sua falta no domingo à congregação. Pela terceira ofensa era para serem açoitados todos os dias até que concordassem.
Em 1662 foi passada a seguinte lei: "Enquanto muitos cismáticos, por sua aversão à religião ortodoxa estabelecida, ou por novos conceitos de suas próprias invenções heréticas, recusam ter seus filhos batizados: Seja portanto sentenciando que todas as pessoas que em desprezo do divino sacramento do batismo recusarem levar seus filhos a um ministro legal no país para os terem batizados, sejam multadas em duas mil libras de tabaco, metade ao público".
O feroz antagonismo aos batistas na Virginia levantou a indignação tanto de James Madison como de Thomas Jefferson. Madison escreveu: "Esse princípio diabólico, de concepção infernal, de perseguição, ruge entre alguns e para sua eterna infâmia o clero pode fornecer sua quota de imposições para tais fins. Há agora no país adjacente nada menos de cinco ou seis homens bem esclarecidos em cárceres fechados por publicarem seus sentimentos religiosos, as quais, no todo, são muito ortodoxos".
Em 1785 os Batistas apresentaram a Madison sua declaração de princípios e rogaram-lhe que ele os encorporasse num memorial à legislatura. A influência de Madison, juntamente com a de Jefferson, prevaleceu, e em 1786, Jefferson preparou e conseguiu a passagem pela Assembléia Geral de Virginia do Ato de Liberdade Religiosa, do qual uma parte é como segue: "Seja portanto sancionado pela Assembléia Geral que nenhum homem será obrigado a freqüentar ou sustentar qualquer culto religioso, lugar ou ministério sejam quais forem; nem será forçado, restringindo, molestado ou onerado no seu corpo ou bens, nem sofrerá doutra maneira devido suas opiniões ou crenças; nem por seus argumentos manter suas opiniões em matérias de religião, e que as mesmas de modo algum diminuirão, alargarão, ou afetarão suas capacidades civis".
Conquanto O Senhor Jefferson não fosse batista e, na verdade, nem crente nos eventos milagrosos recordados na vida de Jesus, estava ele profundamente impressionado e influenciado pelo espírito de democracia e liberdade religiosa que prevalecia entre os batistas.
Foi o seguinte comunicado ao Christian Watchman há quase cem anos pelo Rev. Dr. Fishback de Lexington, Kentucky: "Sr. Redator: as seguintes circunstâncias ocorridas no Estado de Virginia, relativas ao Senhor Jefferson, foram a mim pormenorizadas pelo Ancião Andrew Tribble, faz uns seis anos, o qual depois morreu quando na idade de noventa e dois ou três anos. Os fatos podem interessar alguns dos seus leitores. Andrew era pastor de uma pequena igreja batista com reuniões mensais a pequena distância da casa do Senhor Jefferson, oito ou dez anos antes da Revolução Americana. Senhor Jefferson freqüentou as reuniões da igreja várias meses em sucessão. Depois de uma delas Jefferson pediu ao Ancião Tribble para ir à sua casa e jantar com ele, com o que concordou.
O Senhor Tribble perguntou ao Senhor Jefferson se estava satisfeito com o governo da sua igreja. Jefferson respondeu que isso o tocara com grande força e muito o interessara, que considera isso a única forma de democracia pura que então existia na terra, que concluíra que isso seria o melhor plano de governo para as colônias da América. Foi isto diversos anos antes da Declaração de Independência".
O Juiz Story, no seu tempo o mais eminente dos juristas americanos, diz: "A Roger Williams pertence a fama de estabelecer neste pais, em 1636, um código de leis em que lemos pela primeira vez, desde que o cristianismo subiu ao trono dos césares, a declaração que a consciência deverá ser livre e o homem não deveria ser punido por adorar a Deus de qualquer maneira em que ela fosse persuadida que Ele requeresse".
Bancroft, o historiador, diz: "Roger Williams tinha então um pouco mais de trinta anos, mas sua mente já tinha maturado a doutrina que lhe assegura a imortalidade da fama, pois sua aplicação deu paz religiosa ao mundo americano".
Gervino, o mais astuto historiador da Alemanha no seu tempo, ajunta este testemunha: "De acordo com estes princípios, Roger Williams insistiu, no Massachusetts, em conceder inteira liberdade de consciência, inteira separação da igreja e do estado. Foi, porém, obrigado a fugir e em 1636 formou em Rhode Island uma pequena e nova sociedade em que se concedia perfeita liberdade de fé e em matérias de fé e em que regulava a maioria nos negócios civis. Aqui, num pequeno estado, os princípios fundamentais de liberdade política e eclesiástica prevaleceram antes de serem ensinados em qualquer das escolas de filosofia da Europa. Naquele tempo o povo predizia apenas uma vida efêmera para estes princípios democráticos: sufrágio universal, elegibilidade universal ao ofício, mudança de regentes anualmente, perfeita liberdade religiosa e a doutrina miltoniana dos cismas. Mas estas idéias e estas formas de governo não só se mantiveram aqui, mas precisamente deste pequeno estado estenderam-se por todos os Estados Unidos, conquistaram as tendências aristocráticas na Carolina e Nova Iorque, a Alta Igreja na Virgínia, a teocracia no Massachusetts e a monarquia em toda a América. Deram leis ao continente e, formidáveis pela sua influência moral, jazem no fundo de todos os movimentos democráticos que agora estão abalando as nações da Europa".
Revendo esta sombria história da América, somos constrangidos a perguntar: estas atrocidades tiveram lugar na América, a terra dos livres e o lar dos bravos? Somos constrangidos a fazer esta observação: que o despotismo no governo e o despotismo na religião caminham de mãos dadas, e sempre que rendemos nossa democracia no governo, rendemos nossa liberdade na religião. Testemunhem Stalin na Rússia, Hitler na Alemanha, Mussolini na Itália e admoestem-se firmai com os Anabatistas, os rebatizadores dos séculos, que sempre batalharam pela democracia no governo e pela liberdade na religião.
Eles galgaram a subida íngreme ao céu
Através de perigo, luta e dor;
Ó Deus, graça nos seja dada, a nós,
Para seguirmos nas suas pegadas.
Autor: W. M. Nevins